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segunda-feira, 8 de julho de 2013

Língua Portuguesa I - Aula 12

O gênero RESENHA

A resenha possui duas funções principais: 1) descrever o objeto resenhado, enumerando suas propriedades principais, as circunstâncias que o envolvem, fazendo um resumo seletivo/não-exaustivo do conteúdo desse objeto, filtrando aquilo que é essencial/funcional para as intenções do autor da resenha; 2) fornecer uma avaliação sobre o objeto resenhado, oferecendo ao leitor da resenha informações suficientes para que ele possa decidir quanto à consulta ou não do original.

Os objetos de uma resenha são variados: filmes, shows, exposições de arte, livros, concertos, textos, obras culturais, um acontecimento qualquer da realidade (exemplo: partida de futebol), etc.

As resenhas podem ser publicadas em: 1) revistas e jornais de grande circulação; 2) periódicos (no caso de resenhas acadêmicas).

As resenhas acadêmicas possuem um público restrito (membros da academia/universidade) e tema bem definido (livros/artigos publicados recentemente). São normalmente constituídas de quatro blocos textuais: 1) assunto do livro e características gerais; 2) visão geral da obra (estrutura e detalhamento das partes); 3) observações do autor da resenha sobre o valor das partes (este terceiro bloco pode vir mesclado com o segundo); 4) veredicto do autor da resenha sobre a obra como um todo (recomenda, recomenda com restrições ou desaconselha a leitura da obra).

Em uma resenha, não se percebe nem a presença do emissor, nem do receptor. A linguagem é em terceira pessoa, o que confere certa neutralidade à resenha - na seleção e na organização já ocorre a intenção de quem escreve. A ABNT denomina a resenha como resumo crítico. Misturam-se, em uma resenha, partes descritivas, narrativas e dissertativas. Em geral, sobressaem-se a descrição e a dissertação, por isso as resenhas são classificadas em descritivas ou dissertativas.

Nas resenhas descritivas, predomina a descrição das propriedades da obra (no caso de um livro: título, autor, idioma original, tradutor, editora, coleção a que pertence, número de páginas, preço, lugar e data de publicação, volume e número de volumes da coleção, etc.). Relata as credenciais do autor, resume a obra (ideias ou trama - traços narrativos, não-exaustivos), apresenta metodologia empregada, expõe um quadro de referências em que o autor se apoiou, diz a quem se destina (público).

Nas resenhas dissertativas, além da descrição das propriedades e do breve resumo do que é essencial ao conteúdo do objeto resenhado, há o julgamento do autor da resenha sobre as ideias e o valor da obra. O autor da resenha apresenta suas conclusões, apresenta uma avaliação da obra, avalia as informações nela contidas, a forma como foram expostas, justifica a avaliação realizada, levanta argumentos sobre a qualidade do texto ou ausência dela.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Língua Portuguesa I - Aula 11

O gênero CONTO

Comecemos por diferenciar o conto popular do conto literário. O primeiro consiste na forma popular/folclórica de criação coletiva da linguagem. O segundo consiste na forma artística, produto exclusivo de um estilo peculiar/individual.

Os contos populares advêm de heranças de crenças e mitos primitivos que se adaptaram a novos contextos culturais. Provêm de camadas não letradas da população, da literatura oral tradicional. São obstáculos ao conto popular as transformações do modo de vida das sociedades industrializadas, onde predomina a televisão, a qual não só "conta", como também "mostra", moldando a imaginação do leitor. Atualmente, o conto popular tende a restringir-se, portanto, aos meios rurais ou localidades que estejam distantes da indústria, da eletricidade, da televisão, onde o sentar-se ao redor da fogueira para contar histórias (casos, contos) insiste em sobreviver.

Os contos literários têm, em suas origens, esses casos populares, com função lúdica e moralizante, construídos e reconstruídos por contadores de histórias das comunidades, os quais tentavam seduzir seu auditório ao compartilhar acontecimentos, sentimentos e ideias. A própria limitação/concisão do conto literário advém dos contos/casos populares, da tradição oral - ao contrário do romance, que tem suas raízes na cultura escrita e na leitura.

Características: o conto é breve/conciso (qualitativamente), curto (quantitativamente possui um número reduzido de linhas), em contraste com o romance, que é longo; tem um número reduzido de personagens, geralmente anônimas e prototípicas (rei, princesa, padre, dragão); sua ação é concentrada (poucas ou apenas uma ação); sua localização temporal é indefinida (o que lhe dá caráter de permanência temporal). O tipo textual é o narrativo, em prosa; o esquema temporal e espacial é restrito. Possui uma unidade de tom, efeito, tensão e intenção: não há intrigas secundárias, como no romance, o que lhe confere uma imensa força derivada da totalidade dessa unidade.

Temas: diversos - maravilhosos, da carochinha, de animais, de adivinhação, religiosos, de fada, etc. O conto busca o insólito, a surpresa, o inédito do "já visto". Pode ser extraído de um fragmento da realidade, um episódio fugaz, dados extraordinários do real, que muitas vezes passam despercebido. Numa analogia dialética, a vida seria a tese; a expressão escrita da vida, a antítese; o conto, a síntese: simultaneamente uma síntese viva e uma vida sintetizada. A fugacidade numa permanência. Metaforicamente, o conto estaria para a fotografia, assim como o romance está para o filme.

Estudos Teóricos: na teoria sobre o gênero conto de Edgar Alan Poe, há três princípios básicos:
  1. extensão; 
  2. efeito único; 
  3. contenção
O conto deve ser curto, evitando a dispersão do leitor, permitindo a leitura em uma só "assentada" (não há interrupções na leitura como ocorre com o romance). Há, no conto, uma unidade de tom, de tensão, de intensidade, como que sequestrando o leitor, construindo uma ponte entre o leitor e a intenção do autor, mantendo-se a reação/excitação de quem lê durante um tempo suficiente: nem longo demais, nem breve demais, evitando que o efeito se dilua. Assim, o autor faz uma contenção de tudo aquilo que não convirja essencialmente para o drama, eliminando situações ou ideias intermédias que o romance permite e mesmo exige. No conto vai ocorrer algo e esse algo será intenso. O ímpeto natural da arte para o belo fica legado à poesia - a concisão do conto é um de seus limites potenciais. O conto, em resumo, é uma máquina literária de criar interesse.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Língua Portuguesa I - Aula 10

Estudo do gênero literário CRÔNICA.

Origens da palavra "crônica": A palavra crônica teria suas origens na palavra grega chronos. O mito em torno do deus grego Chronos (deus do tempo, equivalente ao deus romano Saturno) consiste no fato de que ele, com medo de ser destronado, engolia seus próprios filhos. Um deles, Zeus, com a ajuda da mãe, teria escapado e, mais tarde, feito o pai vomitar todos os seus irmãos, arrastando-o para o Tártaro e prendendo-o no mundo subterrâneo, juntamente com os outros titãs, tornando-se, assim, divindade suprema do Olimpo, deus do céu. O conceito por trás do mito consiste no fato de Chronos, assim como a crônica, querer barrar a passagem do tempo (cronológico). Ao engolir os filhos, Chronos eternizava-se no poder, cristalizando o tempo. Da mesma forma, a crônica tenta captar uma fração do tempo cronológico, eternizando-a.

A crônica segundo os cronistas: Para Machado de Assis, a crônica seria "a fusão admirável do útil e do fútil". Para Carlos Drummond de Andrade, a aparente frivolidade/insignificância da crônica contrasta com a monstruosidade amarga dos desastres. Sem a obrigação da apuração, correção, avaliação crítica de fenômenos sociais, o cronista (ao contrário do jornalista) joga um "jogo que esgota-se em si, para recomeçar no dia seguinte, sem obrigação de sequência". A crônica, em sua origem legada a um canto ou às margens das páginas dos jornais, seria como aqueles objetos pequeninos, aparentemente inúteis, guardados num canto da casa, "os nadas de uma existência atulhada de objetos imprescindíveis e, ao cabo, indiferentes, quando não fatigantes". Para Vinícius de Moraes, as crônicas são colhidas das notícias ou da concentração do cronista, havendo: os que a fazem de maneira simples, direta; os que a fazem de modo lento, demorado; os que a fazem no ou-vai-ou-racha; os eufóricos, os tristes, os modestos, os vaidosos, etc. Uns são lidos por prazer, outros por vício. Mas este gênero "menor" ou "marginalizado", segundo ele, caíram no gosto do público, que o saboreia como quem toma um "cafezinho quente seguido de um bom cigarro".

A crônica segundo os teóricos/críticos do gênero: Inicialmente, a crônica destinava-se a contar relatos verídicos, históricos, cronológicos, geralmente ligados ao cotidiano/história da nobreza (exemplo: primeiro e segundo livro das Crônicas presentes no Antigo Testamento da Bíblia cristã). É a partir do século XIX que os cronistas transformam a crônica em um motivo de reflexão sobre a vida social, os costumes, o cotidiano. Usualmente assinada, a crônica atual tem motivos diversos, recebendo, conforme a esfera social que retrata, um qualificativo: literária, policial, esportiva, política, jornalística, etc.

Segundo Sérgio Roberto Costa: texto curto, simples, acessível a todos, de interlocução direta com o leitor, com marcas de oralidade. Sua função: agradar aos leitores. Tema preferido: o acontecimento insignificante, ao qual ninguém tenha prestado atenção, o fato miúdo, a cena corriqueira. "É a pausa de subjetividade, ao lado da objetividade do restante do jornal. Considerada um gênero menor da literatura, pode, entretanto, conter seus momentos mais altos, a filosofia do cotidiano, a agudeza dos bons ensaios". Segundo Antônio Cândido, trata-se da "sensibilidade de todo dia", que "na sua despretensão, humaniza". Para Afrânio Coutinho, é o "gênero literário mais ligado ao jornal", com uma natureza, ao mesmo tempo, literária e ensaística. Ao passo que o jornalista veicula a informação ou a opinião por meio da notícia, o cronista usa-a como pretexto, veiculando uma "reação individual, pessoal, íntima, diante do espetáculo da vida". Uma busca por transcendência e arte, sobreposta a objetividade jornalística.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Língua Portuguesa I

Hoje não houve aula. A professora Regina Crispim não pôde comparecer por motivos de saúde.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Língua Portuguesa I - Aula 9

A professora Regina Crispim trabalhou o texto "Jornalismo e Literatura: limites, interseções, diálogos".

Introdução

Comentou-se o fato de os gêneros literários recorrerem a conteúdos ou mesmo às técnicas do jornalismo com o objetivo de retratar de forma crítica a realidade do mundo atual. Assim, existem interseções entre jornalismo e literatura, incluindo o consumo utilitarista e a obsolescência rápida. Por vezes, há pouca diferença entre a abordagem do fato jornalístico e a ficção literária.

Falou-se ainda que o texto jornalístico deve basear-se em princípios: tão gerais que permitam a sua atualização e a absorção de mudanças diacrônicas; tão específicos que permitam a sua identificação enquanto gênero e os seus objetivos (informação, opinião). Classificou-se a dualidade geral/específico do gênero jornalístico como "instabilidade do gênero".

Linguagem Jornalística

Ao definir a linguagem jornalística, impõe-se-lhe limites, pois "definir é restringir". As restrições relacionadas à linguagem jornalística estão relacionadas com:
  1. registros de linguagem: deve-se equilibrar a acessibilidade e a eficiência da linguagem coloquial com as pressões jurídico-sociais em favor da linguagem formal;
  2. processos de comunicação: prosa, função referencial, em 3ª pessoa, dando verossimilhança, objetividade e certa neutralidade ao texto.;
  3. compromissos ideológicos: os quais são determinados social, histórica e culturalmente - a linguagem aqui é tida como articuladora da cultura e mantenedora da identidade/língua nacional.
Fait-divers e a antítese

Matéria jornalística que não se situa em campo de conhecimento pré-estabelecido. Interessa-se por si mesmo, não depende de nada exterior ou passado: é inconsequente - aproximando-se do conto. Cobre situações de cúmulo, de contradição radical, impactantes (como a tragédia na boate Kiss no início deste ano, a morte de motociclistas degolados por linhas com cerol, o assassinato de um paciente que acabara de receber alta da UTI onde havia permanecido em coma por 10 anos, a morte de Moisés antes de chegar à terra prometida, a morte de Tancredo Neves antes de tomar posse como primeiro presidente da re-democratização brasileira de 1985, etc.). Lembra o cúmulo (contradição) já presente nas tragédias gregas e a antítese (figura de linguagem).

Jornalismo enquanto gênero literário

O jornalismo pode ser considerado como gênero literário na medida em que a definição de gênero flexibiliza-se, não se enrijece, apresentando-se como "um tipo de construção estética determinada por um conjunto de disposições interiores em que se distribuem as obras segundo as suas afinidades intrínsecas e extrínsecas" e não como "um conjunto de normas objetivas a que toda composição [pertencente àquele gênero] deve obedecer".

Há três acepções para a literatura:
  1. sentido lato: toda expressão verbal, falada ou escrita;
  2. sentido corrente: expressão verbal com ênfase nos meios de expressão, sem exclusão dos fins;
  3. sentido restrito: arte da palavra, finalidade puramente estética.
Certamente, se a literatura for concebida em seu sentido restrito (arte), o jornalismo não poderá ser considerado como gênero literário. Entretanto, se a literatura for concebida em seu sentido corrente (expressão verbal com ênfase nos meios de expressão, sem exclusão dos fins), sim. 

Segundo Nilson Lage, a finalidade do jornalismo é transmitir a informação, processá-la em escala industrial e para consumo imediato. A ênfase de Nilson Lage, como vimos em Teorias do Jornalismo, está na exposição do fato, do referente, de forma objetiva, sem muito espaço para a estética própria da literatura em seu sentido restrito. Entretanto, para autores como Nelson Traquina, há espaço na literatura jornalística para a narração do fato (hiper-realidade), inclusive para um certo viés estético, desde que não se perca o contato com o fato: a informação do fato, a formação de opinião pelo fato, a atualidade do fato, o estilo pessoal do jornalista ao abordar os fatos.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Língua Portuguesa I - Aula 8

Exposição sobre "Gêneros do discurso: introdução".

A classificação dos gêneros do discurso tem por objetivo, como qualquer outra classificação, aprofundar o conhecimento sobre o tema. Para tanto, a tarefa exige método e ordem. O objeto desse estudo é a heterogeneidade discursiva. A classificação deve ser, ao mesmo tempo, geral, fornecendo uma lista (não-exaustiva) das principais constantes de cada gênero, e particular, possibilitando a identificação do gênero em questão.

As classificações/tipologias são diversas. As que foram tratadas em aula são três, refletindo as concepções de linguagem estudadas:
  1. tipologias cognitivas (Adam - 1991)
  2. tipologias funcionais (Jakobson - 1963)
  3. sócio-interacionista (Bakhtin - 1986, 1992)
As tipologias cognitivas (Adam) refletem a concepção de linguagem como espelho/expressão do pensamento. O critério da classificação é a organização cognitiva dos conteúdos. A finalidade é a compreensão do funcionamento textual através de uma definição das operações subjacentes à produção (locutor, emissor) e compreensão (receptor). Estritamente linguística, baseada em estruturas sequenciais prototípicas dos textos, essa classificação realiza uma provisória suspensão das condições sócio-históricas de produção dos enunciados. Tipos: 
  • narração
  • descrição
  • argumentação
  • explicação
  • diálogo
As tipologias funcionais (Jakobson) refletem a concepção de linguagem como instrumento de comunicação. O critério da classificação é o conjunto de funções do ato comunicativo verbal, de acordo com a ênfase em um ou outro elemento do ato comunicativo. Crítica: prevê um ato comunicativo idealizado, não prevê ruídos e interferências típicas de praticamente todo ato comunicativo. Tipos (elemento [função]): 
  • remetente [expressiva/emotiva]
  • destinatário [apelativa/conativa]
  • contexto/referente [referencial]
  • canal [fática]
  • mensagem [poética]
  • código [metalinguística]
A tipologia sócio-interacionista (Bakhtin) reflete a concepção de linguagem como processo, como interação. Os enunciados são, portanto, produto de interações sociais. O critério de classificação é o conjunto de condições sócio-históricas do contexto de produção do discurso. Assim, a diversidade de atos comunicativos reflete-se em uma diversidade de gêneros textuais. Nesse sentido, a classificação proposta por Bakhtin é geral, flexível, não específica:
  • gêneros primários (ou livres): advindos do cotidiano, da oralidade, tendo relação imediata com a situação em que foram produzidos.
  • gêneros secundários (ou estandardizados): advindos das trocas culturais (principalmente escritas), tais como por ocasião de manifestações artísticas, científicas, sociais, políticas, etc. Mais complexos, absorvem e assimilam os gêneros primários.
Bakhtin defende a ideia de que um gênero não pode ser tratado de forma cristalizada, homogeneizada. Um gênero apresenta traços de regularidade, o que lhe confere certa estabilidade. Entretanto, co-existem na classificação dos gêneros proposta por Bakhtin, forças centrípetas, que trazem o texto para o seu padrão de repetibilidade e regularidade enquanto gênero; e forças centrífugas, que ameaçam sua estabilidade e refletem o contexto da interação comunicativa. Os textos são, portanto, um ambiente de tensão e instabilidade, dependentes do contexto dialógico da comunicação. Considera-se, também, aspectos linguísticos, isto é, a materialidade linguística dos textos. Mas a tônica da classificação é, de fato, o aspecto sócio-histórico-cultural da instituição discursiva. O receptor/emissor antecipa ou tem visão do texto como um todo acabado pelo conhecimento prévio do paradigma dos gêneros a que teve acesso em suas relações com a linguagem.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Língua Portuguesa I - Aula 7

O tema da aula de hoje da professora Regina Crispim foi coesão e coerência textuais. A primeira parte da aula foi dedicada ao estudo da coesão; a segunda, ao estudo da coerência.

Na produção de um texto, coesão e coerência estão imbricadas, isto é, parcialmente sobrepostas, sendo "extremamente difícil, ou mesmo impossível estabelecer uma separação nítida entre um e outro fenômeno".

Coesão

A coesão materializa-se através de fatores que conferem sequenciação ao texto, seja de forma explícita (através de conectivos, mecanismos formais que permitem relações de sentido entre elementos do texto), seja de forma implícita (através de uma sequenciação lógica, dependente do conhecimento de mundo do autor do texto e do leitor para se realizar).

Vimos cinco categorias de coesão (as quais também podem ocorrer imbricadas):
  • Referência
    • Exofórica (também chamada Situacional ou Extratextual)
    • Endofórica (também chamada Textual ou Intratextual)
      • Anafórica
      • Catafórica
  • Substituição
    • Nominal
    • Verbal
  • Elipse
  • Conjunção
  • Lexical

Exemplos:
Referência Exofóricao termo a que se refere encontra-se fora do texto. 
"Como vimos no primeiro capítulo deste livro..."
"Na aula passada, conversamos sobre..."
"Conforme a definição de mais-valia proposta por Marx..." 
Referência Endofórica Anafórica: o termo a que se refere encontra-se dentro do texto e já foi expresso. No primeiro exemplo abaixo, o pronome pessoal do caso reto "Ele" (2º período) refere-se e substitui "O professor" (1º período). No segundo, o pronome demonstrativo "isso" (2º período) refere-se e substitui "Responsabilidade e seriedade" (1º período). 
"O professor chegou tarde para a aula. Ele se atrasou por conta do engarrafamento na Av. Goiás."
"Responsabilidade e seriedade. É isso que eu espero de vocês." 
Referência Endofórica Catafórica: o termo a que se refere encontra-se dentro do texto e ainda não foi expresso. No exemplo abaixo, o pronome demonstrativo "isto" antecipa "responsabilidade e seriedade". 
isto que eu espero de vocês: responsabilidade e seriedade." 
Substituição Nominal: o termo que se substitui é um nome (substantivo).  
"O professor chegou tarde para a aula. Ele se atrasou por conta do engarrafamento na Av. Goiás." 
Substituição Verbal: o termo que se substitui é um verbo, locução ou uma oração inteira. O verbo "fazer" é substituto dos verbos causativos/ação, enquanto o verbo "ser" é substituto dos verbos existenciais/de estado. 
"O papa ajoelhou-se. As pessoas também."
"O papa ajoelhou-se. Todos fizeram o mesmo."
"O papa é cristão. Muitos dos que ali estavam também."
"O papa é cristão. Muitos dos que ali estavam eram." 
Elipse: omissão de um termo recuperável pelo contexto. Substituição por zero. 
"Você cumpriu os prazos. Eu, não." (Eu não cumpri os prazos.)
"João Paulo II esteve em Goiânia. Aqui, disse que a igreja continua a favor do celibato." (João Paulo II disse que a igreja continua a favor do celibato
Conjunção: trata-se de uma relação semântica de coesão, não necessariamente realizada pela classe gramatical de mesmo nome. "Os elementos conjuntivos são coesivos não por si mesmos, mas indiretamente, em virtude das relações específicas que se estabelecem entre as orações, períodos e parágrafos." 
"Apesar de ter ido mal nas primeiras provas, o aluno alcançou êxito ao final do semestre." (relaçao de concessão
Lexical: reiteração de itens lexicais idênticos ou que possuem o mesmo referente. 
"O papa esteve em Goiânia. Sua Santidade beijou o solo goiano." (sinônimo)
"Eu adoro cocada. É o doce que eu mais gosto." (hiperônimo)
"Sempre tem confusão na Pecuária. É uma coisa muito triste." (coisa = confusão na Pecuária) 

Coerência

"Enquanto a coesão se dá ao nível micro-textual, a coerência caracteriza-se como o nível de conexão conceitual e de estruturação do sentido, manifestado, em grande parte, macro-textualmente."

"Um texto contém mais do que o sentido das expressões na superfície textual, pois deve incorporar conhecimentos e experiência cotidiana, atitudes e intenções, isto é, fatores não linguísticos." Pode, por exemplo, ocorrer incoerência por discordância ideológica.

Níveis de coerência:
  • Narrativa: o texto respeita as implicações lógicas da narrativa;
  • Argumentativa: não há contradição entre os argumentos apresentados;
  • Figurativa: as alegorias são coerentes (exemplo: pomba = paz, lebre = velocidade, tartaruga = lentidão, raposa = esperteza);
  • Temporal: o texto respeita a sucessividade dos eventos (anterioridade, concomitância e posterioridade);
  • Espacial: compatibilidade em termos de localização, organização e descrição espaciais (exemplo de incoerência: "A Torre Eiffel é ponto de passagem obrigatória para os visitantes de Londres.")
  • Nível de linguagem: compatibilidade entre linguagem e público alvo (exemplo: aula de Língua Portuguesa na universidade, no Ensino Fundamental ou no meio rural - a linguagem deve ser coerente com a faixa etária/público alvo).

AVISOS
  • Não haverá aula na próxima segunda-feira, dia 27/05/2013;
  • A prova final ficou marcada para o dia 22/07/2013;
  • Até o dia 22/07/2013, todos devem entregar um resumo do texto "Gêneros Discursivos", do Bakhtin e uma resenha de um filme (o qual ainda vai ser tema de uma aula futura);
  • Quem não puder fazer a prova do dia 22/07 poderá fazer uma prova substitutiva no dia 29/07/2013.

Referências:

segunda-feira, 13 de maio de 2013

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Língua Portuguesa I - Aula 5

O tema da aula de hoje foi: "Introdução ao estudo do texto".

A professora Regina Crispim iniciou a primeira parte da aula retomando o que foi visto em aulas anteriores:

  • As 3 concepções de linguagem:
    • 1ª concepção: Linguagem como espelho/expressão do pensamento
    • 2ª concepção: Linguagem como instrumento de comunicação
    • 3ª concepção: Linguagem como processo/interação (Bakhtin)

  • Os 6 elementos constitutivos da comunicação e as 6 funções de linguagem deles derivadas (Roman Jacobson):
    • Emissor (emotiva ou expressiva)
    • Receptor (conativa ou apelativa)
    • Forma da Mensagem (poética)
    • Conteúdo/Contexto da Mensagem (referencial)
    • Código (metalinguística)
    • Canal (fática)

Em seguida, foi trabalhada a concepção do sujeito da produção textual enquanto entidade psico-físico-social. Essa concepção compreende as 3 concepções de linguagem estudadas: psico (1ª concepção), físico e social (2ª e 3ª concepções).

Enfatizando-se a 3ª concepção de linguagem como a mais completa em termos de descrição dos atos comunicativos, retomou-se a noção, vista na aula anterior, de que a intenção do emissor deflagra a comunicação. Entretanto, enquanto interação/processo, a comunicação prevê um receptor ativo. Dessa forma, o receptor, ao interpretar um texto, constrói significados, a partir da realidade em que se insere, de suas habilidades/capacidades inatas/desenvolvidas e dos recursos que tem à sua disposição. O processo de comunicação/leitura é, portanto, dialético.

Exemplos: deficientes físicos/visuais/auditivos ao interpretarem um "texto" - no sentido mais amplo da palavra, enquanto materialização de uma determinada linguagem - exemplificam a construção de significado a partir de habilidades/capacidades inatas/desenvolvidas; uma intertextualidade só pode ser percebida se o receptor tiver tido acesso aos "recursos" necessários para compreendê-la - nesse caso, o "texto" a que se refere o emissor, como é o caso da gravura à esquerda, em que se faz referência à pintura "O Grito", do norueguês Edvard Munch.



Trabalhando em mais profundidade o conceito de "texto", pode-se defini-lo como a "unidade mínima significativa à qual é possível conferir um sentido". 

Nesse ponto da aula, a professora apresentou uma crítica a Saussure, linguista que teria separado a fala da escrita, considerando esta última como menos variável e, portanto, mais passível de uma análise interpretativa eficaz. 

Também foi feito um contraste entre gramáticas que param no estudo da frase como unidade mínima significativa (visão de Jacobson) e gramáticas gerativistas, as quais privilegiariam a criatividade da linguagem e o texto como unidade mínima significativa. Segundo as gramáticas gerativistas, a partir de uma estrutura inicial de oração/frase, o emissor poderia criar novas estruturas, derivadas da original, não sendo necessário (nem possível!) aprender todas as estruturas existentes em uma linguagem para um bom desempenho linguístico (visão de Chomsky).

Exemplos: As frases "Acordei cedo", "Vi as rosas" e "Fiquei infeliz" possuem, isoladamente, um significado próprio. Entretanto, em conjunto, elas não formam uma unidade significativa, não formam um "texto". Falta um contexto que explique a infelicidade do eu-lírico ao ver as rosas. As frases "Acordei tarde", "Cheguei atrasado" e "Perdi a prova", além de possuírem um significado quando isoladas (orações coordenadas assindéticas), quando juntas, elas formam um texto, isto é, uma unidade mínima significativa que prescinde de qualquer outra informação adicional.

Falou-se ainda do texto como matriz para a ocorrência coerente dos elementos do sistema linguístico. Dois importantes elementos dessa matriz são o gênero e o tipo textuais.

Os gêneros são variados e têm a ver com o conteúdo dos textos. São dinâmicos, surgindo com o desenvolvimento da linguagem, em sua interação diacrônica com a realidade social. Os tipos são mais restritos e têm a ver com a forma dos textos. São exemplos de tipos de texto: o narrativo, o argumentativo e o descritivo.

Na segunda parte da aula, comentou-se que o "sujeito-leitor se constitui na relação com a linguagem", isto é, a linguagem contribui para formação da identidade do leitor. Essa identidade, segundo Barthes, define a quais pontos o leitor inclinará o seu olhar, em seu processo de leitura interativa do texto.

Falou-se ainda do autor do texto como o seu primeiro leitor e, portanto, criador do efeito-leitor, isto é, da leitura esperada do texto, a qual revelaria as intenções do autor ao escrevê-lo. Desse modo, "a leitura é/realiza esse jogo, esse trabalho do sentido sobre o sentido".

Comentou-se sobre a necessidade de se levar em conta o contexto de produção do texto, o qual se pode denotar a partir de marcas ideológicas, bem como a partir de marcas no próprio signo/código. Exemplos: diferenças que podem ser encontradas entre a grafia de vocábulos aqui no Brasil e a realizada em Portugal; o histórico "ph" em "pharmacia" ou o "h" de Bahia.

Resumindo a temática da aula de hoje em uma frase: "A materialidade da ideologia é o discurso; a materialidade do discurso é a língua/linguagem; e a manifestação concreta da discursividade é o texto." Ou seja, a intenção/ideologia do emissor, materializa-se em um discurso, pontapé inicial para a comunicação. O discurso sistematiza-se e organiza-se ao submeter-se à codificação e nuances da linguagem, enquanto processo/interação. Por sua vez, a linguagem materializa-se, enquanto unidade mínima significativa, no texto.

Encerrou-se a aula fazendo-se uma interpretação do poema "O assassino era o escriba", de Paulo Leminski.

O assassino era o escriba 
Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito
Inexistente.
Um pleonasmo, o principal predicado da sua vida,
regular com um paradigma da primeira conjugação.
Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial,
ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito
assindético de nos torturar com um aposto.
Casou com uma regência.
Foi infeliz.
Era possessivo como um pronome.
E ela era bitransitiva.
Tentou ir para os EUA.
Não deu.
Acharam um artigo indefinido em sua bagagem.
A interjeição do bigode declinava partículas expletivas,
conectivos e agentes da passiva, o tempo todo.
Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça.

No poema, Paulo Leminski utiliza a função metalinguística da linguagem para promover o efeito de humor, promovendo a aproximação entre a temática explorada (o enfadonho estudo de sintaxe da língua portuguesa experimentado pelo eu-lírico e por muitos estudantes) e sua expressão poética.

A adesão do leitor à imagem do professor criada por Leminski é imediata, devido à identificação entre leitor e eu-lírico, muito provavelmente co-experimentadores de um mesmo contexto de aprendizagem formal da gramática/sintaxe.

Marcas - como a forma verbal "era", no título, possivelmente remetendo ao "era uma vez" de alguns contos infantis - permitem classificar o texto como pertencente ao gênero conto/poesia de ficção, por exemplo. A presença  de um narrador, de personagens, de uma sequência ínicio-meio-fim e de uma descrição de personagens seguida por um enredo permitem classificá-lo como pertencente ao tipo "narração".

O elemento de coesão "o", em "matei-o", no último verso, permite a leitor fazer as trajetórias do professor e do aluno no poema. O professor começa como sujeito ("Meu professor", no primeiro verso) e termina como objeto ("matei-o"). O aluno, por sua vez, inicia-se como objeto de tortura do professor e termina como sujeito/autor do crime ("matei").

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Língua Portuguesa I - Aula 4


O tema da aula de hoje foi: "Funções da Linguagem".

No início da aula, foram retomadas as concepções de linguagem, as quais foram temas de aulas anteriores.
  • 1ª concepção: Linguagem como expressão do pensamento
  • 2ª concepção: Linguagem como instrumento de comunicação
  • 3ª concepção: Linguagem como prática social e forma de interação (Bakhtin)

Em seguida, foram apresentados os elementos constituintes do modelo de comunicação.
  • Emissor (ou Remetente)
  • Receptor (ou Destinatário)
  • Mensagem
  • Contexto (ou Conteúdo, ou Referente)
  • Código (compartilhado entre Emissor e Receptor)
  • Canal (suporte físico ao ato de comunicação)

As funções da linguagem foram, assim, derivadas dos elementos constituintes desse modelo de comunicação.

FunçãoFoco
Emotiva (ou Expressiva)Emissor (1ª pessoa)
Conativa (ou Apelativa)Receptor (2ª pessoa)
PoéticaForma e/ou elaboração da Mensagem
Referencial (ou Denotativa)Contexto ou conteúdo da Mensagem (3ª pessoa)
MetalinguísticaCódigo
FáticaCanal

Por meio de dez textos, a professora não só exemplificou algumas dessas funções da linguagem, mas também quebrou os estereótipos:
  • de que existiriam funções de linguagem específicas para cada gênero textual
  • de que um ato comunicativo vale-se de apenas uma única função de linguagem

A quebra do primeiro estereótipo foi ilustrada através da comparação dos textos 9 e 10.

O Texto 9 é uma paródia do gênero anúncio, a qual faz uso de palavras (léxicos) retiradas do campo semântico da gramática da língua portuguesa, trazendo-as para o campo das relações humanas. Não há metalinguagem ou função metalinguística, pois não se trata de um anúncio que trata do ato de compor um anúncio, nem de uma poesia a falar do fazer poético. Trata-se de um anúncio em que há uma predominância da função poética - e não da função referencial, como era de se esperar, a exemplo do Texto 10.

A quebra do segundo estereótipo foi ilustrada através dos textos 1 e 2.

No Texto 1, apesar de a função poética estar presente, predomina a função conativa ou apelativa. No Texto 2, igualmente, há função poética, mas, desta vez, a predominância é da função metalinguística.

A conclusão da aula girou em torno da discussão da intenção do ator da comunicação. As funções da linguagem deflagariam as intenções do emissor, seguindo os processos de:
  • seleção de palavras (eixo paradigmático)
  • combinação de palavras (eixo sintagmático)

Assim, durante o ato comunicativo, o emissor submeteria esses dois processos (seleção léxica e combinação gramatical) às convenções do gênero a que se propõe comunicar.

Para exemplificar esses processos, a professora propôs as seguintes orações:
  1. O professor negou-se a discutir as notas.
  2. Aquele professorzinho negou-se terminantemente a discutir as notas.

Na primeira oração, há predominância da função referencial, não havendo outra intenção que a de comunicar uma informação relevante para os estudantes. Na segunda oração, além da função referencial e da transmissão da informação, há a predominância da função emotiva, já que o emissor expressa, ainda que de forma subliminar, sua opinião sobre a personalidade do professor.

Referências

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Língua Portuguesa I - Aula 2

O tema da aula de hoje foi "Linguagem, língua, comunicação: conceitos e inter-relações".

segunda-feira, 8 de abril de 2013