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sexta-feira, 26 de julho de 2013

Decy Graffiti

Arte: Decy Foto: Ailton Sousa

Todos os dias, a caminho da UFG, deparava-me com o graffiti acima. Esse sorriso alegrava minhas manhãs, por mais carrancudo que eu tivesse acordado. Esses olhos fechados pareciam sonhar com um mundo menos frio, menos violento, menos desigual - mais feliz. Uma cena tão impactante, gravada em uma parede em ruínas, numa calçada de terra batida, num cruzamento anônimo de Goiânia.

Procurei pelo autor do graffiti nas redondezas, mas sem sucesso. Numa busca por "Decy" no Facebook, entretanto, tive a grata surpresa de encontrar muitas outras obras desse profícuo artista goiano. Sozinho ou em parceria com André Morbeck, Decy tem contribuído para a revitalização de várias áreas ou elementos urbanos esquecidos ou que passam desapercebidos da maioria da população goianiense. Quando você menos espera, num passeio pela cidade, uma de suas obras certamente irá lhe saltar aos olhos.

Arte: Decy Foto: www.facebook.com/decy.graffiti

Sempre impactantes, trazendo o realismo das grandes cidades, o negro, o índio, o imaginário, o fantástico, as obras de Decy dão vida às ruínas, becos, praças e quadros telefônicos da cidade. Quando o contactamos pelo Facebook, Decy pediu que entrássemos em contato com ele por telefone. Combinamos um encontro no "bacião" - assim foi apelidada uma das misteriosas (e esquecidas) praças do Setor Sul. Uma quadra esportiva e uma extensa área verde abandonadas.

No caminho até o "bacião", a ação de pichadores é marcante. Raros são os muros que não estão pichados. Vandalismo ou descaso das autoridades? Busca por identidade? Falta de oportunidades? São perguntas difíceis de responder. Entretanto, o contraste entre as pichações do caminho e as obras de arte do "bacião" é avassalador. Decy e Morbeck fizeram do "bacião" uma galeria de arte a céu aberto. Boa parte das fotos que lá tiramos estão expostas nos posts que se seguem.

Arte: Decy Foto: Ailton Sousa
Enquanto esperávamos por Decy, contemplávamos algumas de suas obras em parceria com Morbeck. Uma coruja que pairava pela quadra de esportes era nossa única companheira. Mais tarde, um cachorro sem dono veio fazer-nos companhia. Encontramos um ou outro morador da região, sempre apressados, sempre de passagem. Trabalhadores de uma construção próxima também por ali passaram, mas sem muitas delongas. Talvez as obras de Decy e Morbeck já sejam parte de seu cotidiano, tanto que passam aparentemente despercebidas. Talvez.

Ao encontramos com Decy, ele comentou que tinha um trabalho a fazer, não tão distante dali. Ele trabalha com letreiros e outros serviços particulares - este é seu ganha-pão. Adentrou o mundo do graffiti para não deixar só o filho, que então completava 13 anos. Auto-didata, "eterno aprendiz", Decy mostra com orgulho suas gravuras. Ele disse que cerca de 20% dos muros do "bacião" já estão pintados. Os demais 80% serão transformados com o tempo. Um trabalho voluntário, ou melhor, um hobby, às vezes patrocinado por alguns moradores. Na nossa opinião, um belo trabalho, não só artístico, mas de revitalização de uma praça esquecida pelas autoridades.

Arte: Decy Foto: www.facebook.com/decy.graffiti
Os textos a seguir foram inspirados em obras que vimos no "bacião" ou na página do Decy no Facebook. Elas fazem uma relação entre a obra de Decy/Morbeck e a matéria que estudamos na disciplina de Cultura Brasileira I. Convidamos todos à reflexão, seja pela leitura dos textos, seja apreciando as imagens. Para mais detalhes sobre a arte do Decy ou sobre como chegar até o "bacião", entre em contato com algum dos integrantes do nosso grupo. Esperamos que gostem do trabalho que desenvolvemos. Ótimas férias a todos!

Arte: Decy Foto: www.facebook.com/decy.graffiti

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Descoberta

Arte: Decy/Morbeck Foto: Ailton Sousa
A nau. A selva.
O princípio de tudo.
O desejo mesquinho.
O escravo africano,
Índio americano,
Espanhol, português:
Uma história sangrenta,
Não se diz, não se fez.
São as águas do mar,
Cancelando o verão.
Faz apelo à justiça
Este meu coração.

A paz. A guerra.
Já acabou-se tudo.
E o desejo mesquinho
Continua a seguir.
Falsidade é a nossa
Perfeita tradição.
Que promessa de vida
Pode ter a canção?
São as águas do mar,
Enterrando a paixão,
Extinguindo a beleza,
Essa grande ilusão.

Arte: Decy/Morbeck Foto: Ailton Sousa

Texto: Ailton Sousa

Grafite e Linguagem

O grafite, atualmente, é visto enquanto linguagem - elemento comunicacional que permite a expressão dos elementos culturais que envolvem a maneira com que o artista se relaciona com a sociedade. Bakhtin (1986), no livro Filosofia da Linguagem e Marxismo, contribui com o entendimento da linguagem ao afirmar que não falamos palavras, e sim verdades, mentiras, coisas boas ou más, etc. Entende-se, assim, que a linguagem é carregada de ideologias pertencentes ao grupo social em que o enunciador se insere ou pensa se inserir.

Historicamente, os grupos sociais buscaram maneiras para se comunicar através de um meio que assim o permitisse. Conquanto, sabe-se que este processo de busca não aconteceu de forma harmoniosa. Diversos grupos socais tiveram suas linguagens silenciadas e marginalizadas para favorecer projetos de organização política, econômica, cultural etc. O grafite é um dos movimentos que buscam romper com esta padronização do fazer artístico. Tem origem nos Estados Unidos, por volta da década de 1970, com os jovens do Bronx. Sua especificidade é a utilização das ruas e espaços inicialmente não pensados para este fim para sua manifestação.

Como todo grupo artístico, o grafite apresenta-se com uma grande variedade de estilos e temáticas. Entretanto, pode-se perceber que, em sua maioria, os trabalhos ainda se resguardam no comprometimento político-poético de sua origem.

Abaixo segue uma seleção de fotos dos trabalhos de Decy – goiano que começou a grafitar para acompanhar seu filho de treze anos nas ruas, para resguardá-lo dos possíveis perigos de se exercer esta arte ainda não totalmente aceita pela sociedade – relacionadas com poesias de Charles Baudelaire. O intuito da associação não é promover uma limitação de interpretação, mas o diálogo entre duas formas de linguagem.

Arte: Decy Foto: Decy

“Para além do ondular dos telhados, avisto uma mulher madura, já com rugas, pobre, sempre debruçada sobre alguma coisa, e que nunca sai. Com seu rosto, sua roupa, seu gesto, com quase nada refiz a história desta mulher, ou melhor, sua lenda, e por vezes a conto a mim mesmo chorando [...] Talvez me digam: “Tem certeza que esta lenda é verdadeira?” Que importa o que seja a realidade situada fora de mim, se me ajudou a viver, a sentir que sou, e o que sou?” CHARLES BAUDELAIRE p.183

Arte: Decy/Morbeck Foto: Ailton Sousa

“Eu canto os cães calamitosos,quer os que vagam, solitários, nos córregos sinuosos das cidades imensas, quer os que disseram ao homem abandonado, piscando os olhos maliciosos:   “Leve-me com você, e com nossas duas misérias talvez possamos criar alguma espécie de felicidade.” CHARLES BAUDELAIRE p. 237

Arte: Decy Foto: Ailton Sousa

“Ando louco para pintar aquela que tão raro apareceu e tão depressa fugiu, como algo belo e saudoso atrás do viajante transportado noite adentro. Há tanto tempo já, que ela desapareceu! Ela é bela, e mais que bela: é surpreendente. O negro nela excede, e tudo que ela inspira é noturno e profundo.” CHARLES BAUDELAIRE p. 185

BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e Filosofia da Linguagem: problemas fundamentais do Método Sociológico na Ciência da Linguagem. 3ª ed. São Paulo: Hucitec, 1986.
BAUDELAIRE, Charles. Pequenos poemas em prosa. São Paulo: Hedra, 2011

Texto: Érica Reis

Presente de Aniversário

Arte: Decy Foto: Jaiane Neves

Aniversário de quatro anos de Ana, uma negra linda de olhos grandes e curiosos e cabelos volumosos. Após uma pequena comemoração, com poucos parentes e amigos, Ana abre os presentes, vestido, saia, sapatos e uma caixa com um embrulho bonito.

Arte: Decy/Morbeck Foto: Ailton Sousa

Ao retirá-lo, Ana encontra uma boneca, uma boneca com características de bebê, mas uma boneca com características de mulher, branca, alta, magra, com cabelos longos, lisos e louros e olhos azuis: era a Barbie.

Arte: Decy/Morbeck Foto: Ailton Sousa

A boneca que carrega décadas de padrões de beleza e a frustração que esses padrões causaram e causam a milhões de mulheres no mundo. As mulheres da Espanha são morenas, as da China são baixinhas, as da Angola são negras, ou seja, em poucos países as mulheres tem o estereótipo de Barbie. Mesmo assim, Ana tem em sua frente modelo que terá que seguir. Não só por que a boneca é bonita, mas, também por que os jornais, as revistas e a televisão mostra, que este é o perfeito, o que deve ser seguido.

Arte: Decy/Morbeck Foto: Ailton Sousa

Ana teria maiores chances de se olhar no espelho e se achar bonita, gostar de seu cabelo “ruim” e da cor de seus olhos, se os padrões de beleza não fossem tão limitados. Isso tem que mudar.

Arte: Decy/Morbeck Foto: Ailton Sousa

Texto: Jaiane Neves

Grafite vs. Pichação

Arte: Decy/Morbeck Foto: Ailton Sousa

O graffiti ou grafite é uma forma de manifestação artística em espaços públicos. O grafite surgiu em Nova York no final da década de 1960, onde jovens de minorias excluídas da cidade expressavam sua arte. Já no Brasil surgiu no final da década de 1970, em São Paulo. Mas há vestígios desta arte desde o Império Romano.

Arte: Decy/Morbeck Foto: Ailton Sousa

O grafite está diretamente ligado a outros movimentos, como o hip hop, que procura expressar a realidade das ruas. Há um conflito entre o grafite e a pichação: o grafite é desempenhado artisticamente, já a pichação não passa de poluição visual e vandalismo.

Arte: Decy/Morbeck Foto: Ailton Sousa

Os grafiteiros deixam a sua marca em banheiros públicos, casas abandonadas, edifícios, metrôs, monumentos públicos, ônibus, etc. Para evitar problemas, foram criados projetos visando profissionalizar essa arte e dar aos grafiteiros a oportunidade de exibirem seu trabalho. O grafite brasileiro é considerado um dos melhores do mundo.

Arte: Morbeck Foto: Ailton Sousa

Texto: Natália Esteves

Olhares

Arte: Decy Foto: www.facebook.com/decy.graffiti

Estou parada no ponto às 18 horas, esperando o ônibus passar. Quanta demora, vinte minutos ali esperando, as pernas já doem da correria do dia-a-dia, e em meus pensamentos, imagino ir sentada naquele ônibus, mas ao ver a quantidade de pessoas ali junto comigo, desisto da ideia, e apenas torço para conseguir entrar no primeiro ônibus que passar. E no meio de tanta gente, percebo um monte de olhares diferentes, uns mais tristes e cansados, outros mais animados na medida em que a realidade permite. E daí me surge o seguinte pensamento: Como será que esses olhares veem a realidade?

Arte: Decy Foto: Ailton Sousa

Uma pergunta cuja resposta me surgiu facilmente. Ao ver uma movimentação estranha no meio da rua. Um monte de gente ia se aglomerando ali. Curiosa e astuta que sou, resolvi averiguar os fatos. Uma oportunidade de investigação não passaria em branco para uma estudante de jornalismo. À medida que me aproximava daquela multidão um frio me surgia na barriga. E não era para menos.

Arte: Decy Foto: Ailton Sousa

Uma quantidade enorme de pessoas com celulares na mão filmando o que acontecia. Paparazzis, fotógrafos, repórteres e pessoas curiosas. Todos filmando e colocando na internet aquele fato incomum. Um fato capaz de parar tanta gente, de atrair tantos olhares, de fazer as pessoas pararem o seu mundo, o seu serviço para verificar. Seria isso, apenas curiosidade humana? Não sei, não soube responder. Ou não sabia até ver o que tanto olhares observavam atentamente.

Arte: Decy Foto: Ailton Sousa

Numa noite de inverno, fria que só. Era um corpo. Sim, um corpo, que deitado ali estava. Uma mulher nova, muitos anos ela ainda tinha para viver. Mas infelizmente, aquele era seu fim. Um atropelamento lhe tirou a vida. E lhe deu uma atenção que num dia qualquer ela nunca teria. Uma multidão de olhares para apenas verificarem seu triste fim.  Ninguém podia fazer nada. E só lhes restou observarem aquele trágico fim de uma vida.

Arte: Decy Foto: Ailton Sousa
Texto: Nathália Corrêa

"Quem sabe faz a hora, não espera acontecer"

Arte: Decy/Morbeck Foto: Ailton Sousa

Quinta-feira, dia 20 de Junho de 2013. Apanhei minha mochila surrada que me acompanha desde o Ensino Médio, água, vinagre, câmera, tinta, spray, o cartaz que havíamos feito na semana anterior, a bandeira do meu país. Pintei a cara e fui pra rua. O ônibus demorou cinquenta minutos pra chegar. “Malditos ônibus”. Subi as escadas, cumprimentei o motorista. “Pobre coitado”. Lá se foi meu último sitpass. “Essa realidade vai mudar”. Espremido entre um feirante e sua carga, “lá vou eu pra Praça Cívica”.

Olhava os rostos dos passageiros. Alguns dormiam, o sol castigava a tarde do goianiense. Pensei em ler o texto da aula seguinte de Cultura Brasileira, “Jogo de Espelhos”. Sem chance: impossível ler em pé, um olho na mochila (com minha câmera) e outro no texto, um pé de alface no sovaco esquerdo, uma criança chorando “Mãe, quero fazer xixi”, os solavancos do busão que ameaçavam lançar ao chão uma senhorinha que não tivera a sorte de achar um lugar pra se sentar. “Essa realidade tem que mudar”.

Avenida Goiás. “Estamos chegando”. Artéria pulsante, fluxo constante. O motorista recebe com uma buzinada o aceno de um colega que desce no sentido oposto. Sinal de luz, dois farois curtos. “O protesto está começando”. Passamos pela Praça do Trabalhador, meu coração acelera. Lembro das histórias que meus avós contavam, sobre a maria-fumaça, sobre a estação de trem, o teatro de arena. Hoje tudo é deserto, a locomotiva jaz a céu aberto, o crack toma conta das noites, a violência bate à porta da Câmara dos Vereadores. “Corruptos!” - “Essa realidade precisa mudar”.

Primeiro ponto da Goiás, finalmente consigo me sentar! O ônibus desacelera, uma multidão entra e sai. Testemunho o furto de um boné, ali em frente à Catedral da Fé. “Jogo de Espelhos” - rio comigo mesmo e lembro da Facul, dos colegas de Jornal. Abro discretamente a mochila, confiro a câmera, as tintas, a bandeira. “Tá tudo aqui”. Um gole d’água pra matar a sede. “Sede de justiça!” À frente já dá pra ver o movimento, uma aglomeração maior de carros, um buzinaço, uma fumaça cinzenta. “É o protesto!” Salto do ônibus e decido fazer o resto do caminho à pé, com alguns companheiros de luta que estão do lado direito da avenida, ali, pouco depois da Paranaíba. “Vamos mudar essa realidade!”

Arte: Decy/Morbeck Foto: Ailton Sousa

Ouço o burburinho que vem da Praça do Bandeirante, lembro que meus pais não sabem que estou ali. “É perigoso, filho...” Mesmo assim, eu tinha que vir. “O gigante acordou”. “Desculpe os transtornos, estamos mudando o país”. O Bandeirante, lá de cima, olha sisudo o movimento a seus pés. “Onde está minha Praça?”, pensa ele, bateia e bacamarte em mãos. Acabou-se o ouro, acabaram-se os índios. “Para onde vou?”, indaga-se diariamente, contemplando o corredor de ônibus que levou sua Praça. Símbolo de uma cultura forjada, de fato parece não haver mais espaço para desbravadores por aqui. “Diabo Velho, desça daí! Venha mudar essa realidade!”

Pneus em chamas, trânsito interrompido, as mídias, em peso, cobrem a manifestação. Encontro alguns colegas de Jornal, avançamos juntos, passo firme, rumo à Praça Cívica. A polícia acompanha o movimento, alguns a cavalo, outros no choque. Lembro dos protestos das semanas anteriores, dos colegas que se machucaram, dos que foram levados pela polícia, das armas que foram apontadas em nossa direção. “Sem violência!” Tiro a bandeira verde-amarela da mochila, empresto o spray a um camarada que passou à minha esquerda. “Sem partido!” As vozes das ruas começam a ganhar força, conforme nos aproximamos do Palácio das Esmeraldas. “Vem pra rua, pra rua vem!”

Faço da bandeira uma capa. “Sou um herói, um herói nacional!” Meu cartaz agora soma-se a milhares de outros, o protesto é o mais bonito dos últimos dias. “Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor...” Praça Cívica. “Que demonstração de civismo!” Olho pro Monumento às Três Raças. “Índio, negro, branco: quem sou eu?” Olho ao redor, a noite cai, quero viver cada minuto intensamente. Faço saltar a câmera, subo num muro próximo, tiro uma foto da galera. “Sou jornalista”, penso com orgulho. “Estou mudando a História”. Choro, emocionado, por dentro - não quero que me vejam chorar.

O Centro Administrativo, sempre tão imponente, parece pequeno diante da multidão. A vidraça me faz lembrar novamente do texto de Cultura. “Não importa, estou fazendo história!” Continuamos a marcha, já nou sou eu quem marcha, é o povo quem marcha. A liberdade guia o povo. O povo guia o futuro da nação. “Que país é esse?” Uma legião toma conta da maior urbe goiana. Por alguns momentos, o futebol e a novela ficam em segundo plano. Por alguns momentos. Uma noite, talvez menos. “Mas já é alguma coisa...” 

Arte: Decy/Morbeck Foto: Ailton Sousa

Um princípio de confusão, correria, fumaça, gás pimenta, empurra-empurra. “Corre, corre!” Perco de vista os colegas, fica difícil respirar, levo algumas bordoadas da polícia que até então nos entregava flores. “Ei, polícia, cadê seu reajuste?” Tomo o rumo da Praça Universitária, a maioria dos estudantes parece seguir por ali. “Caminhando e cantando e seguindo a canção, Somos todos iguais, braços dados ou não”. Acho que é hora de voltar pra casa, tenho um caminho longo até lá, meus pais me esperam, mal sabem onde e como passei as últimas horas.

Chego em casa. Minha mãe me aguardava ansiosa. “Meu filho, você foi se meter naquele protesto, né?” Bom, acho que não deu pra esconder... Tomo um banho frio, desacelero o coração para a noite de sono que se aproxima. Sento à mesa pra comer alguma coisa, ligo a TV pra ver como estão os protestos em todo o país. No Rio de Janeiro, a Avenida Rio Branco foi tomada pelos manifestantes. Em São Paulo, a Paulista. Em Brasília, ocuparam o teto do Congresso Nacional! “Yes!” - deixo escapar um estranho grito de satisfação e esperança. “Fizemos História!”

“Enquanto uma maioria pacífica conduziu as manifestações, uma minoria de baderneiros depredou a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro” - ouvi o Willian Waack, relatando a manifestação carioca. “Em São Paulo, uma maioria [...], uma minoria [...].” “Já em Brasília, a maioria [...], enquanto uma minoria [...]” Maioria e minoria. Claros e escuros. Pacíficos e baderneiros, arruaceiros, vândalos. “Quem sou eu?” Casa, rua; rua, casa: “Quem sou eu?” Estudante, trabalhador, bandeirante, cidadão, polícia: “Quem sou eu? Que realidade eu quero mudar? Que História eu quero fazer? Que Avenida eu quero seguir? Em que Praça eu quero chegar?”

Sigo para o quarto, cama feita, apago a luz. Contrariado, deito a cabeça sobre o travesseiro e, pelo fone de ouvido, ouço as palavras de Vandré, ainda envolto em meus questionamentos: “Vem, vamos embora, que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.”

Arte: Decy/Morbeck Foto: Ailton Sousa

Texto: Ailton Sousa

sexta-feira, 5 de julho de 2013

sexta-feira, 28 de junho de 2013

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Cultura Brasileira I - Aula #

Na primeira metade da aula de hoje, a professora Luciene Dias coordenou um debate sobre o texto "As Invenções do Cotidiano", de Everardo Rocha. O texto é parte do livro "Jogo de Espelhos: ensaios de cultura brasileira".

Everardo Rocha propõe-se a tecer uma análise a partir do detalhe, isto é, do particular para o geral, indo na contra-mão da maioria das análises científicas, as quais procuram regras gerais para explicar especificidades, ou seja, do geral para o particular.

O autor critica a visão de Gilberto Freyre sobre antagonismos muito próprios da cultura e da própria formação histórica brasileira: europeu e africano; europeu e indígena; africano e indígena; economia agrária e economia pastoril; agricultura e mineração; católico e herege; jesuíta e fazendeiro; bandeirante e senhor de engenho; paulista e emboaba; pernambucano e mascate; proprietário e pária; bacharel e analfabeto. Segundo Freyre, o antagonismo predominante seria o do senhor vs. o escravo.

Segundo Rocha, por um lado, Freyre lista dilemas e dualidades próprias da elaboração da cultura brasileira. Entretanto, por outro lado, Freyre busca um equilíbrio entre as partes antagônicas, acreditando que a compatibilização do antagonismo pelo equilíbrio levaria a um enriquecimento da cultura, em uma espécie de mistura positiva e saudável.

Para Rocha, a realidade da cultura brasileira é mais complexa do que a apresentada por Gilberto Freyre. Lembrando a visão de Rita Segato, o autor afirma que não buscamos essa síntese proposta por Freyre, nem traçamos uma demarcação nítida dos pólos antagônicos: "operamos com os dois lados opostos de forma simultânea". Ou ainda, às vezes, criamos "um terceiro termo que não é síntese, mas negação, renúncia ou perplexidade diante dos outros dois". Trata-se de uma convivência (pacífica?) entre os contrários.

Everardo utiliza-se do termo ambiguidade ou eixo da ambiguidade para se referir à presença de éticas dúplices na cultura brasileira. Tal duplicidade pode ser observada, por exemplo, na ambiguidade apontada pelo autor entre a ética burocrática e a ética pessoal. O código burocrático é impessoal e universalizante, igualitário. Entretanto, no âmbito pessoal, a ética burocrática e a lei podem dar lugar ao jeitinho, à malandragem, à exceção à regra. "Aos inimigos, a lei; aos amigos, tudo!"

O autor parte, assim, para a análise da cultura brasileira sob a ótica (ou "lente", para lembrar o estudo que fizemos do texto "Cultura - Um conceito antropológico", de Roque de Barros Laraia) dessa ambiguidade por ele proposta. Ele analisa dois "detalhes" ou fatos isolados:
  1. uma descoberta típica da infância brasileira, "Quem descobriu o Brasil?";
  2. o tetracampeonato de futebol conquistado em 1994 nos Estados Unidos.


No primeiro caso, Everardo Rocha assinala que, quando a criança brasileira aprende na escola que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil, na realidade, ela apreende três descobertas:
  • a descoberta do Brasil, efetivamente realizada por Pedro Álvares Cabral (um saber operacional e útil para boa parte da vida escolar básica);
  • a descoberta de que esse saber é amplamente compartilhado (todos os brasileiros compartilham tal "ensino");
  • a descoberta de que o Brasil descobre-se (ao contrário dos Estados Unidos ou outros países americanos, onde as crianças são ensinadas sobre a fundação, construção ou conquista de seus países).

"Aprender a descoberta do Brasil é, em certo sentido, aprender que estamos presos na compulsão das descobertas." É o mito das descobertas e invenções, do descobridor e do inventor, do "salvador da pátria". Basta olhar para a enormidade de planos econômicos que tentaram re-inventar ou "salvar" a República brasileira pós-ditadura militar, sufocada pela inflação. Basta olhar para as várias constituições brasileiras, numa tentativa de descoberta, invenção ou salvação política do país. Historicamente, há muitos exemplos: 
  • Tiradentes, o mártir da Inconfidência Mineira;
  • D. Pedro I, herói da Independência;
  • Princesa Isabel, heroína da abolição da escravatura;
  • Marechal Deodoro da Fonseca, herói da República;
  • Getúlio Vargas, o pai dos pobres;
  • Pelé, o rei do futebol;
  • etc.

Citando DaMatta, "na lógica das 'descobertas' [...] as instituições sociais e os valores políticos ficam a salvo da discussão em termos das suas responsabilidades nos processos históricos e sociais. [...] Nas fundações, [...] enfatizam-se instaurações, rupturas, descontinuidades e conflitos."


No segundo caso em análise (tetracampeonato brasileiro), Rocha expõe a insatisfação geral dos brasileiros com relação ao estilo de jogo que a seleção brasileira campeã do mundo apresentou em 1994. Privilegiava-se a técnica e o planejamento, em detrimento do talento, da malandragem e da magia do futebol arte tipicamente brasileiros. Ganhamos com um futebol feio, retranqueiro, excessivamente "europeu".

O autor inicia a análise comentando sobre a facilidade com que transitamos entre o futebol e a realidade social, isto é, a facilidade com que traçamos paralelos entre o futebol (particularmente o selecionado nacional, a seleção "canarinho") e a sociedade brasileira. Dizemos "o Brasil está no ataque", enquanto, na verdade, 11 futebolistas selecionados disputam uma partida de futebol em busca de uma vitória ou premiação, e não uma "batalha" pela "conquista" de algo socialmente relevante.

Essa facilidade que temos de metaforizar a realidade social por meio do futebol encontra um problema quando encara a seleção tetracampeã de Parreira. Tivemos um destaque individual (Romário), mas, segundo Rocha, nenhum comparável ao Pelé de 1970 ou ao Garrincha de 1962, contrariando a lógica cultural brasileira de eleger um mártir ou um herói, um descobridor, dotado de talento inigualável ou mesmo de poderes especiais. Essa lógica talvez volte a fazer sentido no sucesso de 2002, quando o talento de Ronaldo, mesmo face às múltiplas dificuldades pós-cirúrgicas e à sombra do fiasco de 1998 contra a França, superou o melhor goleiro do torneio e "trouxe a vitória para o Brasil".

Dessa forma, "do gênio improvisador de 58, 62 e 70 aos organizados burgueses de 94, existe uma imagem importante nesta seleção, nos levando da desordem para a ordem, do improviso para a organização, do jeitinho à burocracia, da malandragem às leis universais, da casa para a rua. [...] Do mágico acaso dos descobrimentos aos processos negociados das fundações, [...] dos descobridores talentosos aos fundadores humanizados. [...] De alguma forma, gostamos de imaginar que fazemos as coisas magicamente."


Rocha extrapola a ideia para o âmbito da Fórmula 1, lembrando os tempos de Ayrton Senna, quando valorizava-se o talento do campeão brasileiro em detrimento da racionalidade técnica de todos os profissionais envolvidos na construção e ajuste do carro, da máquina. Na realidade, Senna, sem dúvida, possuía enorme talento, principalmente debaixo de chuva, quando "fazia milagres". Entretanto, foi a combinação de seu talento com a racionalidade técnica da McLaren do início dos anos 90 que lhe valeram seus três títulos mundiais. 

Everardo lembra ainda de Emerson Fittipaldi, bicampeão de Fórmula 1. Talento comprovado nas pistas, fracasso técnico enquanto organizador da Copersucar, equipe de Fórmula 1 brasileira. A equipe foi motivo de chacota, ridicularizada pelos brasileiros. "Reagimos mal à proposta de também ser tecnologia."

Com a imagem da conquista do tetracampeonato brasileiro, Rocha afirma que "o Brasil pode se organizar... e vencer [...] talvez não precisemos de heróis, políticos populistas, salvadores da pátria, figurões, líderes carismáticos, medalhões, ditadores ou caudilhos nos ensinando os caminhos do paraíso. Talvez, por força daquele jogo amarrado e feio, se possa encenar um drama diferente e afinal não seja preciso nenhum Dom Sebastião resgatando a alma e cobrando a conta."

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Na segunda metade da aula, a professora Luciene Dias trabalhou a leitura e interpretação do texto "Ritos corporais entre os Nacirema". O texto fala sobre os dilemas do trabalho do antropólogo ou de qualquer um que se proponha a analisar uma sociedade, suas origens, seus ritos. Há uma grande sacada no texto - a qual não revelarei aqui! Seria como contar o final de um filme que você ainda não viu e quer muito ver... Recomendo a leitura!

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Cultura Brasileira I - Aula #

Hoje visitamos a Fazenda Babilônia, uma fazenda que fica no município de Pirenópolis/GO e que data de 1800. A proprietária, Dona Telma, animou a manhã desta sexta-feira com uma série de curiosidades sobre a história da fazenda, a qual se confunde com a história de Goiás e com momentos marcantes da história do Brasil.

A fazenda destaca-se por ter abrigado cerca de 200 escravos, os quais trabalhavam em um engenho de açúcar - algo bastante incomum para a realidade goiana do século XIX, uma vez que a produção de açúcar localizava-se predominantemente na faixa litorânea do Nordeste e do Sudeste, além do fato de que era grande a dificuldade de se trazer escravos da costa brasileira para o Centro-Oeste do país. Segundo a proprietária, os escravos teriam sido trazidos para Goiás com a finalidade trabalhar na mineração. Entretanto, como o ciclo do ouro foi bastante efêmero em solos goianos, os escravos da Fazenda Babilônia passaram a se dedicar à produção do açúcar.

O passeio começou com um farto café-da-manhã colonial/sertanejo. Em seguida, a Dona Telma nos conduziu por um passeio histórico pela fazenda, o qual incluiu curiosidades:

  • dos tempos coloniais, como o fato de a senzala da Fazenda Babilônia ter abrigado escravos solteiros e casados, estes últimos possuindo uma ala separada da dos solteiros; 
  • dos tempos das bandeiras e da mineração, como um caminho de pedras de Pirenópolis e um sistema de escoamento de água recém-descobertos na fazenda, os quais teriam sido descobertos por acaso pela proprietária, numa tentativa de melhorar o acesso para visitantes; 
  • dos tempos de Império, como um sino premiado e possuindo um selo de D. Pedro II ou como estórias de estrangeiros que se faziam padres da noite para o dia, apenas para receber ofertas pela realização de um batismo ou casamento (devido à dificuldade que encontrava a Igreja em enviar bispos e padres para a região - a maioria morria ou adoecia no caminho, os clérigos eram, portanto, raros em Goiás);
  • dos tempos de República, como uma baioneta e chapéu que teriam pertencido a Carlos Prestes, o qual teria se hospedado na fazenda;
  • sobre expressões do nosso dia-a-dia, como "vou puxar palha" ou "fulano enquanto descansa, carrega pedra";
  • sobre a história de Pirenópolis, como uma placa de carro-de-boi, artefatos usados nas cavalhadas;
  • sobre a história das comunicações, como uma antiga máquina fotográfica, uma antiga máquina de escrever e uma biblioteca contendo jornais da época da fundação de Pirenólopis.




















sexta-feira, 7 de junho de 2013

Cultura Brasileira I - Aula #

A professora Luciene trabalhou o texto "Cultura - Um conceito antropológico", de Roque de Barros Laraia.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Cultura Brasileira I - Aula 4

Na primeira parte da aula, foi exibido o documentário "Somos Yanomami", produzido pelo Ministério da Cultura e pelo Conselho Nacional da Cultura venezuelanos.

Os Yanomami são um grupo de aproximadamente 20.000 pessoas, distribuídas em 200-250 aldeias indígenas na fronteira entre o Brasil e a Venezuela.1

A professora Luciene Dias iniciou a discussão falando sobre a etnografia como metodologia da antropologia no estudo de etnias.2 Ela mencionou ainda as diferentes abordagens que podem ser empreendidas nesse estudo: a do jornalista, a do sociólogo e a do antropólogo. Metaforicamente, o jornalista aproximaria-se de tais comunidades fazendo um sobrevoo sobre as mesmas; o sociólogo passaria de carro, um pouco mais próximo, mas ainda distante da realidade das aldeias; o antropólogo viria à pé e nu, despido de pré-conceitos, disposto a viver em contato e em troca com os nativos.


Na segunda parte da aula, foi discutido o capítulo 7 das "Memórias Sanumá", de Alcida Rita Ramos, fazendo um paralelo do mesmo com o documentário "Somos Yanomami".

O texto discorre sobre o fato de os Sanumá manterem seus nomes em sigilo, passando toda uma vida sem saber ou sem divulgar os seus próprios nomes. O texto trabalha o significado que os nomes próprios têm para os Sanumá, bem como os conceitos de privado e público para os mesmos.

A professora destacou a existência de quatro troncos linguísticos:
  • Yanomami
  • Yanoman
  • Yonam
  • Sanumá

Os dois primeiros, pelo histórico de trocas culturais com o Ocidente, estariam mais próximos do que se poderia chamar de cultura ocidental. Ao afirmar "Somos irmãos, mas somos diferentes", ao final do documentário, o Yanomami entrevistado revela a diferença de costumes existente entre a sua cultura e a cultura ocidental, bem como entre a sua cultura e as dos demais povos Yanomami - como, por exemplo, os Sanumá.

Pode-se depreender do texto de Rita Ramos que, ao contrário dos Yanomami do documentário, os Sanumá  encaram as esferas pública e privada de forma distinta. "O ato de nomear não é tão inocente e folclórico quanto parece."3 O nome de um Sanumá traz consigo um conceito, uma organização social, uma história. Não se trata apenas de uma identificação pessoal, isto é, um modo de se distinguir dos demais. Trata-se de uma identidade coletiva, ou seja, uma maneira de evidenciar o pertencimento a uma determinada comunidade local, suas tradições, sua cultura.

Para a cultura ocidental, o ato de nomear, em geral, não traz tal conotação. Para a cultura brasileira, em particular, são comuns os estrangeirismos e nomes que pouco têm a ver com a ascendência ou identidade dos indivíduos. Em muitos casos, os nomes revelam o passado de dominação europeia, a estrutura de exploração colonial que aqui se implantou. Não raro, o ato de nomear segue ainda padrões ideológicos hegemônicos. Não haveria uma tradução do pertencimento, da noção de coletividade, como há entre os Sanumá.

Nesse ponto da aula, surgiram algumas discussões em torno do tema, como o debate sobre o que se considera primitivo e do que é considerado moderno ou civilizado. A professora contrastou ainda os saberes locais com as interpretações "globalizadas", a busca por uma explicação única e geral para diferentes realidades do "ser" humano. Numa crítica à cultura ocidental, ela ilustrou as diferenças entre as árvores genealógicas do mundo ocidental e as do mundo Yanomami. As primeiras estariam centradas no indivíduo em questão (egôcentricas), enquanto as últimas evidenciariam o coletivo. Falou-se ainda em pasteurização das relações sociais, um processo pelo qual "aspectos considerados perturbadores da realidade social são travestidos em aspectos inócuos, destituídos de vida própria ou convertidos em preceitos morais. Por outras palavras: a pasteurização social procura eliminar os micro-organismos patogênicos sociais."4 Daí as não raras crises de identidade, solidão e depressão no mundo ocidental. Exemplificando essa temática do "pertencimento", Carolina Otto leu o texto "Pertencer"5, de Clarice Lispector.

A professora retomou, então, uma indicação feita na aula anterior, o poema "Me gritaron negra", da mexicana Victoria Santa Cruz.


Diante da crise de identidade do mundo ocidental (em particular, na realidade brasileira), Victoria Santa Cruz convida a uma afirmação positiva de identidade: "Sim, sou negra!".

No caso dos Sanumás, a singularidade de um indivíduo traduz-se através de seu próprio nome. Ao incorporar informações acerca de sua linhagem e comunidade, o nome de um Sanumá, ao mesmo tempo que o distingue dos seus xarás, insere-o em sua coletividade de origem.

Apesar de algumas crenças Sanumás também justificarem o fato de os seus nomes serem mantidos em sigilo (como o mal que um determinado inimigo poderia causar-lhes, pelo pronunciar de seus nomes próprios), a questão do sigilo dos nomes parece ser mais uma questão de etiqueta, recato e respeito com a "pessoalidade", privacidade e identidade de cada um. Não há problema algum em conhecer o nome de um Sanumá, a questão gira em torno do uso do nome em si - como exemplificado no texto pelo episódio em que uma missionária, em alta voz, chamava a todos pelo nome, desconsiderando esse aspecto de sua cultura.

Pelo fato de os nomes Sanumás trazerem toda uma história pessoal, sobretudo valores da esfera privada, pode-se fazer uma aproximação entre a sua prática de sigilo de nomes próprios com a prática ocidental de silenciar-se quanto ao que é privado, quanto ao que se é de fato, quanto à afirmar-se enquanto singularidade/coletividade.

Texto para a próxima aula: "Identidades políticas e alteridades históricas: uma crítica às certezas do pluralismo global", artigo de Rita Laura Segato.

Referências
  1. http://en.wikipedia.org/wiki/Yanomami
  2. http://pt.wikipedia.org/wiki/Etnografia
  3. Notas de aula.
  4. http://oficinadesociologia.blogspot.com.br/2012/05/pasteurizacao-social-23.html
  5. http://pensador.uol.com.br/frase/MjcxMTY/